vezenquando é preciso reaprender quem somos
_quando o corpo vira abrigo e a alma precisa se ajeitar de novo
Há muitas palavras inquietas aqui dentro e eu tenho remoído todas elas. A verdade é que, na ânsia de dizer tudo que há para ser dito, perco a linha coesa do raciocínio e me vejo mergulhada nas constantes preposições; interrogações e adjetivos que, desde que não sou mais sozinha, tem me feito companhia.
Eu estou grávida.
Três palavrinhas singelas que carregam o peso do mundo. Se você acompanha o instagram — onde tenho postado com uma frequência pífia — já deve ter visto uma coisa ou outra; mas para quem ainda não tinha percebido, eis a verdade mais incontestável de todas: eu estou grávida.
Foi uma doce descoberta essa gravidez, em dois de junho de dois mil e vinte e cinco, data que celebrei meu aniversário de trinta e muitos anos. Um presente vindo dos céus direto para o meu ventre, começando a plantar um serzinho miúdo no meu coração e diversas interrogações, euforias e medos dentro de mim.
Já vinha lendo muito. Eu queria me sentir preparada para o “quando"; mas o que ninguém havia me contado é que não importava quanto de teoria eu já soubesse: na prática, na pele, a gente vira um furacão.
Cá entre nós, foi estranho me perceber perdida de mim.
O primeiro trimestre dessa gestação me trouxe um excesso de hormônios que me fez questionar muita coisa — e o futuro nunca foi tão amedrontador. Me vi cheia de perguntas bobas que eram doloridas e sinceras demais: será que vou dar conta? Será que serei uma boa mãe? Será que ainda serei eu?
É muito doido.
Mesmo tendo lido em livros e tendo ouvido de amigas-mamães que a gente muda, é insano sentir em cada milímetro de pele a mudança acontecendo - e nem falo só do corpo, mas da mente. Num dia eu era só Maria Fernanda, escritora & sonhadora; engenheira vezenquando, curiosa vez em sempre. Agora eu sou mãe e parece que todo o resto que um dia fui escorreu pelo ralo; evaporou no primeiro banho quente que cozinhou meus peitos doloridos.
Eu passei um tempo me encarando no espelho questionando quem era aquela mulher que eu via no reflexo, porque nada nela parecia eu; nada nela parecia meu. Era estranho me desconhecer. Da noite para o dia, no meio da confusão hormonal, eu simplesmente não conhecia mais nada de mim — e eu precisei aprender a me entender, de novo, como pessoa…
Engravidar é lindo. É doce, é mágico.
Chorei de emoção quando ouvi as primeiras batidas do coração do meu neném e ainda me emociono de lembrar que tive ao meu lado minha mãe, agora avó, emocionada por presenciar esse pequeno milagre crescendo; chorei de emoção quando nosso neném ganhou um nome & uma cor; e ainda choro quando imagino seu rostinho ganhando o mundo, num ano que está logo ali virando a esquina.
Mas eu chorei de saudade de mim também.
Chorei por não saber nomear minhas emoções; chorei sentido falta daquilo que eu conhecia; chorei por me olhar no espelho e não me ver naqueles olhos, naqueles ombros, naquele contorno de cabelo e esse período foi a montanha-russa de emoções mais insana que já experimentei nesses tantos anos de vida.
A gente vê a parte doce da gestação: o milagre que é produzir um órgão para alimentar uma vida, a constante mudança do nosso corpo para virar casa, o barulho forte que faz um coração tão pequeno e um amor que nasce sem saber explicar como; mas pouca gente fala dessa tempestade que sacode todo o barquinho e nos faz temer o tempo todo.
Faz 4 meses que descobri que estou grávida. Há 4 meses eu venho me redescobrindo e me procurando. Quando entendi que eu precisava de um tempo para que as emoções se realinhassem, respeitei. Meu eu do passado precisava desse silêncio, precisava se afastar das palavras, precisava se reencontrar dentro dessa versão tão nova de mim e perceber que ainda somos tudo que fomos, mas agora somos mais.
Aos poucos me percebo voltando. Estando menos introspectiva, com mais desejo de sonhar alto e retomando projetos que tinha deixado de lado… E agora, cá estou: com menos certezas, mas com um coração batendo dentro e fora de mim.
Voltar a escrever não é só voltar a publicar. É voltar a me ouvir.
E escrever, nesse momento, é minha forma de me lembrar que ainda estou aqui.
Se você ainda estiver por aí, obrigada por me ler.
Voltei.
Mais cheia, mais confusa, mais inteira.
🫀



